Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.
Enquanto o Brasil vivia a pausa de Carnaval, o restante do mundo continuou a produzir sinais importantes sobre como stablecoins e ativos digitais estão sendo tratados em diferentes jurisdições. Nos Estados Unidos, o foco permanece na infraestrutura bancária e nos impasses legislativos. Na África, a discussão passa por liquidez real e spreads efetivos. Já na Ásia e na Europa, bancos centrais avançam em sandboxes regulatórios e estratégias próprias de soberania monetária digital.
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Um giro pela Lumx
As movimentações não ficaram restritas ao cenário internacional. Internamente, a Lumx também aprofundou discussões relevantes para o ecossistema.
Travel Rule — um tema que deixou de ser detalhe
A Travel Rule vem ganhando centralidade nas discussões regulatórias e operacionais. O debate já não é mais conceitual: trata-se de rastreabilidade, governança e qualidade de dados incorporadas ao desenho dos fluxos financeiros.
Publicamos recentemente um carrossel educativo resumindo por que essa exigência existe e quais impactos práticos ela gera na operação de empresas que trabalham com stablecoins e pagamentos internacionais.
Clique aqui para acessar.
Morning Finance — Conversas à Mesa
Às vésperas do Carnaval no Rio, realizamos mais uma edição do Morning Finance, um encontro intimista com líderes de bancos, fintechs e meios de pagamento.
A proposta foi simples: retirar o debate do palco e colocá-lo à mesa. Grupos reduzidos, café da manhã guiado e discussões francas sobre pagamentos e novos modelos de infraestrutura financeira. Formatos menores e bem curados continuam se mostrando um dos ambientes mais produtivos para decisões estruturais.
Clique aqui para conferir nosso aftermovie.
Stable Talks — Gnosis Pay e cartões self-custodial
O novo episódio do Stable Talks trouxe João Victor Vieira, da Gnosis Pay, para discutir a evolução dos cartões cripto autocustodiais — de produto de varejo para camada B2B de infraestrutura.
A conversa passou por account abstraction, smart wallets, collateral, compliance e o papel do Brasil como um dos mercados que mais crescem nesse segmento.
Fiserv constrói trilhos 24/7 em dólar dentro do perímetro bancário
Em resumo — mudança estratégica:
Infraestrutura bancária tradicional passa a oferecer settlement contínuo para empresas cripto
Liquidez em dólar vira vantagem operacional, não apenas acesso bancário
O impasse regulatório americano segue como pano de fundo
O lançamento do INDX pela Fiserv ataca diretamente uma das maiores fricções para empresas de ativos digitais: liquidação em dólar em tempo real dentro de um arranjo bancário tradicional, com cobertura FDIC e acesso via rede de instituições participantes.
Enquanto stablecoins oferecem liquidez contínua onchain, a Fiserv passa a replicar a funcionalidade “always-on” no ambiente offchain. A proposta não exige tokenização do dólar, mas entrega settlement 24/7.
O movimento é sintomático do momento americano. Mesmo com o CLARITY Act travado e debates sobre yield e rewards ainda indefinidos, a demanda institucional por trilhos contínuos já está sendo atendida.
A integração entre TradFi e ativos digitais avança menos por narrativa e mais por infraestrutura.
África registra os maiores spreads de conversão stablecoin–fiat
Em resumo — mudança estratégica:
Blockchain reduz fricção, mas custos locais continuam determinantes
Spreads refletem competição e liquidez, não apenas tecnologia
Conversão permanece como principal gargalo
Dados da Borderless.xyz mostram que a África registrou, em janeiro, os maiores spreads medianos de conversão entre stablecoins e moeda fiduciária. Em Botswana, os spreads chegaram a aproximadamente 20%, enquanto na África do Sul ficaram próximos de 1,5%.
O ponto central é claro: a promessa de custos mais baixos depende da última milha. Stablecoins liquidam em segundos, mas a conversão para moeda local ainda é determinada por infraestrutura bancária, competição e profundidade de mercado.
A adoção em mercados emergentes continua crescendo, mas os ganhos só se materializam quando o ecossistema local amadurece.
Malásia testa stablecoins e depósitos tokenizados em sandbox regulatório
Em resumo — mudança estratégica:
Banco central testa stablecoins em moeda local para liquidação institucional
Depósitos tokenizados surgem como ponte entre bancos e onchain
Foco está em wholesale settlement
O Banco Central da Malásia anunciou pilotos envolvendo stablecoins denominadas em ringgit e depósitos bancários tokenizados dentro de um sandbox regulatório.
A escolha é estratégica: começar pelo atacado, não pelo varejo. O objetivo é testar liquidação institucional, cross-border settlement e tokenização de ativos reais com bancos como Standard Chartered, CIMB e Maybank.
O movimento também reflete preocupações locais, incluindo compatibilidade com princípios de Shariah. Stablecoins são tratadas como infraestrutura monetária nacional, não como produto especulativo.
Bundesbank insere stablecoins em euro no debate de soberania
Em resumo — mudança estratégica:
Stablecoins em euro entram na discussão como ferramenta estratégica
Europa busca independência frente ao dólar digital
CBDCs e stablecoins passam a coexistir como camadas complementares
O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, defendeu que stablecoins denominadas em euro podem contribuir para fortalecer a independência europeia em pagamentos e liquidação cross-border.
Com quase a totalidade das stablecoins atuais denominadas em dólar, o debate deixa de ser técnico e passa a ser geopolítico.
Stablecoins em euro aparecem como complemento possível a uma eventual CBDC, especialmente para empresas e indivíduos envolvidos em fluxos internacionais.
Coreia do Sul reabre mercado para corporações após nove anos
Em resumo — mudança estratégica:
Instituições retornam sob limites prudenciais rígidos
Stablecoins e ETFs entram no horizonte regulatório
Abertura gradual substitui liberalização plena
A decisão de encerrar a proibição de trading corporativo marca uma inflexão relevante no mercado sul-coreano.
Empresas listadas e firmas profissionais poderão voltar a operar ativos digitais, ainda que sob limites estritos — como teto de 5% do capital anual e restrição aos principais ativos.
O objetivo é institucionalizar o mercado sem repetir excessos do ciclo anterior. A agenda inclui legislação específica para stablecoins e potencial abertura para ETFs spot no futuro.
Institucionalização, neste caso, significa acesso controlado e escala gradual.
As movimentações desta semana deixam claro que stablecoins não estão avançando sob um modelo uniforme. Cada jurisdição tenta encaixar o produto dentro de suas próprias prioridades: eficiência bancária, liquidez real, soberania monetária ou controle prudencial.
A próxima fase não será definida por uma única regulação ou arquitetura dominante, mas pela capacidade de conectar — ou fragmentar — esses trilhos em escala global.
O desafio passa a ser interoperabilidade sob múltiplas soberanias.
Nos vemos na próxima edição.






