Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.
A semana trouxe um retrato claro de como o mercado de stablecoins começa a se expandir para além da narrativa centrada no dólar. Apesar do domínio ainda evidente de USDT e USDC, novos movimentos mostram que outras moedas, regiões e estruturas institucionais passam a ganhar espaço de forma mais consistente.
Entre avanços regulatórios na Europa, adoção por grandes empresas, pressão por transparência e novos casos de uso em crédito imobiliário, o que emerge é um mercado que continua se consolidando, ao mesmo tempo em que se especializa.
Tempo de leitura: 5 minutos
Stablecoins em euro ganham espaço com apoio regulatório
Em resumo:
• Stablecoins em euro já representam mais de 80% do mercado fora do dólar
• MiCA surge como principal catalisador de adoção na Europa
• Uso se concentra em pagamentos, remessas e tesouraria
Stablecoins denominadas em euro começam a ganhar tração dentro de um mercado historicamente dominado pelo dólar. Segundo dados da Dune em relatório comissionado pela Visa, esses ativos já representam mais de 80% da oferta fora do eixo USD, com destaque para o EURC, da Circle.
Mais relevante do que o tamanho absoluto é o padrão de uso. Diferente de ciclos anteriores, o crescimento atual está diretamente ligado a fluxos reais de pagamento, remessas e operações de tesouraria, especialmente em empresas que operam em euro.
Esse avanço está diretamente conectado ao ambiente regulatório europeu. O MiCA trouxe clareza jurídica e reduziu barreiras operacionais, permitindo que stablecoins passem a ser tratadas como infraestrutura viável dentro do sistema financeiro.
O movimento reforça uma leitura importante: o domínio do dólar permanece, mas a expansão do mercado passa por casos específicos onde moeda local, regulação e integração fazem diferença.
Stablecoins entram no radar operacional das empresas
Em resumo:
• Stablecoins passam a ser vistas como porta de entrada para adoção corporativa
• CFOs e tesoureiros entram no centro da decisão
• Pagamentos ainda são parcela menor, mas em crescimento
Segundo Brad Garlinghouse, CEO da Ripple, stablecoins podem representar um “ChatGPT moment” para empresas, funcionando como porta de entrada para adoção mais ampla de infraestrutura blockchain.
A mudança de foco é relevante. O tema deixa de estar restrito a áreas de inovação e passa a envolver diretamente CFOs e tesoureiros, que analisam stablecoins sob a ótica de eficiência operacional, liquidez e redução de custos.
Embora pagamentos ainda representem uma fração do volume total transacionado, já existe um uso consistente. Estimativas da McKinsey apontam cerca de US$ 390 bilhões anuais em pagamentos com stablecoins em 2025, com destaque para B2B, remessas e settlement.
Esse movimento ajuda a deslocar o crescimento do setor: menos dependente de ciclos de mercado e mais ligado a decisões estruturais dentro das empresas.
Grandes empresas avançam com trilhos blockchain próprios
Em resumo:
• Mitsubishi adota infraestrutura blockchain do JPMorgan
• Plataforma já processou trilhões em volume
• Bancos desenvolvem trilhos digitais permissionados
A adoção da rede Kinexys, do JPMorgan, pela Mitsubishi reforça uma tendência que vem se consolidando: grandes empresas estão incorporando trilhos blockchain para pagamentos corporativos e operações globais.
A infraestrutura permite liquidação quase instantânea, operação contínua e menor dependência de processos bancários tradicionais. Com trilhões já processados, o modelo demonstra demanda real em escala institucional.
Ao mesmo tempo, o movimento evidencia um contraste relevante. Enquanto stablecoins avançam como trilhos abertos e programáveis, bancos tradicionais seguem desenvolvendo versões permissionadas e controladas dessa lógica.
Pressão por transparência cresce com escala das stablecoins
Em resumo:
• Tether inicia processo de auditoria completa com a KPMG
• Movimento acompanha expansão institucional
• Transparência passa a ser requisito, não diferencial
A Tether contratou a KPMG para conduzir sua primeira auditoria completa das reservas do USDT, marcando uma mudança importante na postura institucional da empresa.
A decisão ocorre em um contexto de expansão nos Estados Unidos e possível captação de recursos, onde transparência deixa de ser opcional e passa a ser exigência para operar em escala institucional.
O movimento reflete uma tendência estrutural: à medida que stablecoins ganham relevância sistêmica, cresce a necessidade de padrões mais rigorosos de governança, controle e prestação de contas.
Stablecoins começam a entrar no crédito imobiliário
Em resumo:
• Fannie Mae passa a aceitar ativos digitais como colateral
• USDC pode ser utilizado sem liquidação
• Modelo conecta cripto a crédito tradicional
Pela primeira vez, a Fannie Mae permitirá o uso de ativos digitais como colateral para financiamentos imobiliários, em parceria com Coinbase e Better Home.
O modelo permite que usuários mantenham seus ativos, incluindo stablecoins, enquanto utilizam esses recursos como base para obtenção de crédito.
Esse avanço é relevante porque conecta stablecoins a uma das estruturas mais tradicionais do sistema financeiro: o crédito imobiliário. O uso deixa de se limitar a pagamentos e remessas e passa a integrar produtos financeiros de longo prazo.
Mesmo com limitações iniciais, o movimento sinaliza uma expansão gradual do papel desses ativos dentro da arquitetura financeira tradicional.
À medida que stablecoins passam a ocupar espaço em diferentes moedas, estruturas e casos de uso, o mercado evolui para um modelo mais diverso e especializado.
O domínio do dólar segue claro, mas a expansão do setor passa a refletir necessidades locais, contextos regulatórios e dinâmicas específicas de cada mercado.
Mais do que crescimento isolado, o que emerge é um processo de encaixe dentro da arquitetura financeira global, onde diferentes stablecoins cumprem funções distintas, adaptadas a contextos específicos.
É nesse equilíbrio entre padronização global e especialização local que a próxima fase do mercado começa a se desenhar.





