Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.
A última semana foi da regulação ganhando espaço nos holofotes em diferentes locais do mundo. Dos Estados Unidos e Reino Unido decidindo alinhar as regras de tokenização e stablecoins dos dois lados do Atlântico, ao BCE reagindo na direção oposta e as agências americanas não fechando as regras finais do GENIUS Act. Outras notícias envolvendo produto, tanto na Visa quanto no Japão, e uma boa dose de recomendações de leitura, com foco em uma provocação minimamente interessante.
Giro pela Lumx
Antes das histórias da semana, um breve giro sobre as últimas novidades da Lumx que valem ser compartilhadas:
Ubyx no Operator Map. A Lumx adicionou a Ubyx ao Operator Map. A Ubyx é uma rede institucional de clearing e settlement onde bancos e fintechs se conectam uma única vez e passam a aceitar e resgatar qualquer stablecoin regulada pelo valor de face, já com clientes pagantes no Brasil e na Argentina. O perfil dela reforça uma lição que se vê repetir na região: o clearing é global, mas a última perna é sempre local. Dinheiro tokenizado ganha escala quando uma camada neutra de clearing encontra trilhos locais regulados. O Operator Map é o mapeamento da Lumx, construído junto com a comunidade, das empresas que estão colocando a América Latina no mapa global das stablecoins, com submissão aberta e critérios públicos. → Acesse
Luiz Cornetta como Head of Internal Controls. A Lumx reforçou o time numa área tratada como parte central do produto: controles internos. Luiz Cornetta chega após mais de 12 anos no BTG Pactual, onde liderou produtos para SMEs, projetos de câmbio e trade finance, comandou a área de operações e participou da criação do ambiente de negociação de cripto do banco. A leitura por trás da contratação é direta: enquanto o ambiente regulatório de ativos virtuais e câmbio avança no Brasil, empresas de infraestrutura precisam se antecipar, não reagir. Uma área dedicada a controles internos aproxima a Lumx das estruturas de instituições financeiras reguladas, e é o que permite que bancos, fintechs e empresas de pagamento usem stablecoins com segurança jurídica e operacional desde o primeiro dia. → Veja
Reuso de KYC no produto. Na parte de produto, a Lumx colocou no ar o reuso de KYC. Se o cliente já completou a verificação na sua própria conta Sumsub, agora é possível passar um share token ao criá-lo na Lumx, importando a verificação existente em vez de coletar tudo de novo. Um campo na chamada de API, e um onboarding que levava dias passa a levar minutos. Por ora vale para verificação de pessoas (KYC), ainda não para empresas (KYB), e exige um acordo de compartilhamento de dados. → Confira o changelog
EUA e Reino Unido vão alinhar regras transatlânticas de tokenização e stablecoins
Em resumo:
Tesouros dos EUA e do Reino Unido publicaram quatro recomendações conjuntas sobre ativos digitais, via a Transatlantic Taskforce for the Markets of the Future
As stablecoins "devem ser totalmente lastreadas, ao menos 1:1, por ativos líquidos de alta qualidade", em linha com o GENIUS Act
Relatório estima que a tokenização pode adicionar até US$ 44 bilhões à produção econômica anual do Reino Unido até 2035
O Departamento do Tesouro dos EUA e o HM Treasury britânico divulgaram um conjunto de recomendações sobre ativos digitais como parte de uma força-tarefa bilateral para os mercados do futuro. O pacote sugere criar um grupo liderado pelo setor privado para testar casos de uso cross-border de ativos tokenizados e pede que as agências financeiras americanas e o Bank of England identifiquem abordagens comuns na regulação desses ativos. Sobre stablecoins, os dois governos publicaram uma declaração conjunta mirando alinhamento regulatório e um "mercado dinâmico de stablecoins entre fronteiras".
A frase que ancora o documento é sobre proporcionalidade: cada governo pretende calibrar suas exigências para "buscar resultados comparáveis para riscos e atividades comparáveis", avançando a estabilidade financeira sem desincentivar a competição transfronteiriça. A declaração não cita o GENIUS Act explicitamente, mas o critério de que stablecoins devem ser totalmente lastreadas ao menos 1:1 por ativos líquidos de alta qualidade converge com a lei americana. Em paralelo, um relatório de uma força-tarefa britânica estimou que a tokenização pode adicionar até US$ 44 bilhões à produção anual do país até 2035 se o Reino Unido for uma das jurisdições líderes, e pediu a emissão de títulos públicos tokenizados até o primeiro trimestre de 2027.
A leitura se encaixa no que se observa sobre coordenação regulatória. Como abordado ao tratar das regras do Bank of England algumas edições atrás, o Reino Unido decidiu que ser conservador demais custa relevância. Agora, americanos e britânicos tentam evitar que suas regras divirjam a ponto de fragmentar o mercado. Para quem opera multi-jurisdição, esse é o tipo de movimento que reduz atrito no médio prazo: quanto mais os grandes centros perseguem "resultados comparáveis", menor o custo de construir infraestrutura que atravessa fronteiras.
BCE volta a alertar que a adoção de stablecoins pode corroer depósitos bancários
Em resumo:
Piero Cipollone, do conselho do BCE, disse que a adoção mais ampla de stablecoins pode erodir a base de depósitos de varejo dos bancos comerciais
Ele defendeu o euro digital como forma de preservar o papel dos bancos e do dinheiro público nos pagamentos
O BCE selecionou 36 provedores para um piloto de euro digital de 12 meses, previsto para o 2º semestre de 2027
Piero Cipollone, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, afirmou que a adoção mais ampla de stablecoins pode corroer a base de depósitos de varejo dos bancos comerciais. Em discurso à federação italiana de bancos cooperativos, em Roma, ele argumentou que os pagamentos digitais estão remodelando o setor e aumentando a dependência europeia de infraestrutura de pagamento não europeia. Segundo Cipollone, os bancos já vêm perdendo tarifas e dados de transação para provedores de pagamento móvel, e o euro digital ajudaria a preservar o papel deles no sistema.
O argumento não é novo — e é justamente essa recorrência que o torna relevante. Como registrado quando o BCE reagiu às propostas de flexibilização algumas edições atrás, a autoridade monetária europeia sustenta uma posição consistente: stablecoin em escala desintermedia o banco, e a resposta preferida de Frankfurt é o dinheiro público na forma de euro digital. Na terça anterior à fala, o BCE selecionou 36 provedores de pagamento, entre bancos, fintechs e empresas de pagamento, para um piloto de euro digital de 12 meses previsto para o segundo semestre de 2027, com a decisão sobre emissão podendo vir a partir de 2029.
Enquanto EUA e Reino Unido buscam alinhar regras para destravar mercado, o BCE calibra o passo para proteger a arquitetura bancária do bloco, apostando num instrumento público que ainda levará anos para sair do piloto. Não é oposição à digitalização, e sim uma escolha diferente sobre quem deve ficar no centro dela. Para emissores e fintechs operando na Europa, o recado prático é que o caminho do euro tokenizado seguirá mais lento e mais mediado pelo banco central do que o do dólar.
Agências americanas perdem o prazo do GENIUS Act para as regras finais de stablecoin
Em resumo:
No sábado, um ano após a sanção do GENIUS Act, as agências americanas não finalizaram as regras de implementação
Foram publicadas 10 propostas de regra (NPRMs), mas nenhuma versão final, envolvendo Tesouro, OCC, FDIC e Fed
Perder o prazo não invalida a lei, mas mantém incerteza regulatória para os emissores
As agências regulatórias dos EUA perderam o prazo de sábado para a edição das regras de implementação do GENIUS Act, exatamente um ano após a lei ser sancionada. Ao longo dos últimos doze meses, Tesouro, OCC, FDIC e Federal Reserve publicaram propostas e coletaram comentários, mas nenhuma regra final foi editada antes do prazo. Perder a data não invalida a lei, cuja vigência está prevista para janeiro de 2027, mas mantém uma zona de incerteza para os emissores que precisam saber sob quais condições vão operar.
Vale a foto do que já saiu do papel. Foram 10 propostas de regra no total: o Tesouro liderou com quatro, cobrindo desde os critérios para reconhecer regimes estaduais equivalentes ao federal até o registro de emissores estrangeiros e as obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro. A OCC publicou duas sobre emissores de stablecoin de pagamento com charter nacional, a FDIC uma sobre instituições sob sua supervisão, a NCUA propôs regras para cooperativas de crédito, e as agências bancárias federais desenharam uma norma interagências para harmonizar a supervisão. É bastante trabalho em andamento, mas nenhum ponto final.
A leitura conecta duas frentes acompanhadas há meses. De um lado, o GENIUS Act já vinha produzindo produto e distribuição, como observado nos bancos e fintechs que se tornaram emissores. De outro, a régua fina ainda não fechou, e o setor pressiona para destravar a próxima etapa: a Anchorage Digital aproveitou o aniversário da lei para renovar o apelo pela aprovação do CLARITY Act, enquanto associações bancárias, como a ABA e a ICBA, cobram mais clareza sobre a remuneração de stablecoins, argumentando que os tokens de pagamento não podem virar substitutos de depósito. É o mesmo tabuleiro de sempre: a tecnologia anda mais rápido que a caneta do regulador, e é nessa diferença de ritmo que mora boa parte do risco e da oportunidade.
Visa lança plataforma de stablecoin para bancos e fintechs
Em resumo:
A Visa Stablecoin Platform (VSP) reúne emissão, resgate, carteira e gestão de tesouraria em stablecoin num único sistema para instituições
Estreia com suporte à Open USD (OUSD), além do já existente para USDC (Circle) e USDG (Paxos)
Entra em beta com clientes selecionados antes de um rollout mais amplo
A Visa apresentou uma plataforma que permite a bancos, fintechs e provedores de pagamento emitir, manter e transferir stablecoins pela sua rede. Em vez de exigir que cada instituição construa a própria infraestrutura de blockchain, a Visa Stablecoin Platform integra emissão, resgate, carteira e tesouraria a fluxos de pagamento e settlement que os clientes já operam, com controles de aprovação de transações e trilhas de auditoria embutidos. Segundo a Fortune, a plataforma nasce com alcance para a base de mais de 200 milhões de estabelecimentos da Visa, e entra em beta com clientes selecionados.
O detalhe que conecta com o que se observou na edição passada é a escolha de lançamento. A VSP estreia com suporte à Open USD, a stablecoin lançada em junho pelo consórcio Open Standard abordada nas últimas semanas, ao lado do suporte que a Visa já dava a USDC e USDG. Jack Forestell, chief product and strategy officer da Visa, resumiu bem a proposta: "para a maioria das instituições, a parte difícil não é o conceito, é a realidade operacional". É exatamente a lacuna entre entender a tecnologia e operá-la com controle que a plataforma tenta preencher.
O movimento da Visa no ecossistema segue consistente. Em março ela se tornou Super Validator da Canton, em abril expandiu o programa de settlement em stablecoin para nove redes com run rate de US$ 7 bilhões anualizados e mais de 130 programas de cartão ligados a stablecoin em mais de 50 países. Com a VSP, a empresa deixa de apenas liquidar em stablecoin e passa a oferecer a infraestrutura de emissão como produto para quem quiser lançar a própria. É a confirmação de uma tese recorrente: a camada de competição se desloca da emissão para a distribuição, e os grandes trilhos querem ser a plataforma onde essa distribuição acontece.
Transportadora japonesa vai pagar motoristas com a stablecoin JPYC
Em resumo:
A AZ-COM Maruwa, grande empresa de logística do Japão, planeja usar a JPYC para pagar cerca de 2.300 parceiros de negócio
Deve ser o primeiro uso corporativo em larga escala da stablecoin em iene no país, com pagamentos mais rápidos e frequentes e sem tarifa de transferência
A empresa estuda parceria com a JPYC e investimento de mais de 1 bilhão de ienes (US$ 6,2 milhões)
A AZ-COM Maruwa Holdings, uma grande empresa de logística japonesa que conta a Amazon Japan entre seus principais clientes, planeja adotar a stablecoin JPYC para pagar cerca de 2.300 parceiros de negócio, no que deve ser o primeiro uso corporativo em larga escala da stablecoin em iene no Japão. Segundo reportagem do Nikkei, a moeda será usada para pagar taxas e remuneração a prestadores individuais que fazem o transporte, incluindo caminhoneiros, permitindo pagamentos mais rápidos e frequentes justamente por não cobrar tarifa de transferência. A empresa também estuda uma parceria com a JPYC e um investimento de mais de 1 bilhão de ienes, cerca de US$ 6,2 milhões.
O que torna o caso relevante é a natureza do uso. Como o Japão vem aparecendo com frequência nestas edições — das stablecoins em iene da SBI aos avanços regulatórios do último ano — a novidade agora é a camada operacional: uma folha de pagamento real, de milhares de motoristas, migrando para um trilho de stablecoin porque ele é mais rápido e mais barato. É o tipo de adoção que não depende de narrativa, depende de resolver um problema concreto de fluxo de caixa e frequência de pagamento.
A leitura se conecta diretamente com a tese de uso empresarial sustentada ao longo das edições. Pagamento de prestador e de folha é um dos casos de uso onde a stablecoin mais se destaca, porque a dor de custo e de tempo é sentida a cada ciclo. Quando uma transportadora de porte decide pagar quem está na ponta com dinheiro tokenizado, o sinal que fica é que a stablecoin cruzou da tesouraria e do settlement institucional para o contracheque de quem dirige o caminhão.
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Para quem depende de ser encontrado, este texto explica por que medir tráfego é a métrica errada para a busca por IA.
Kevin Indig, num guest post na Growth Unhinged, propõe um jeito melhor de medir o impacto do AEO (answer engine optimization). O ponto de partida é incômodo: quase ninguém clica nas citações da IA (a Pew achou ~1% de cliques em citações de AI Overviews, e um vazamento do ChatGPT apontou CTR de 0,69%), e mais de 70% do tráfego vindo de IA chega ao GA4 marcado como "direto", sem referência. Medir AEO por clique, portanto, é como avaliar um comercial de Super Bowl pelos QR codes escaneados. No lugar disso, ele sugere uma "escada de visibilidade" com indicadores que vão de retrieved (a IA encontra) a cited (cita) a trusted (recomenda), fixando um conjunto de 20 a 50 prompts por semanas para medir mudança real.
A conexão com o ecossistema de stablecoins é a mesma disciplina de sempre: medir a coisa certa. Assim como a metodologia ajustada da Visa filtra bots para chegar ao volume orgânico de stablecoin, a proposta de Indig separa vaidade de sinal na visibilidade em IA.
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História da Semana
A IA fez engenheiros se sentirem mais produtivos — e pode estar cobrando um preço que os painéis não mostram.
Annie Vella publicou a segunda parte da pesquisa de mestrado dela sobre o impacto da IA na engenharia de software, e o achado central é desconfortável: produtividade e experiência começaram a se descolar. Ao longo de seis meses, 84% dos participantes disseram que a IA melhorou a produtividade, e esse número ficou estável. Mas a experiência de desenvolvimento andou na direção oposta: o grupo com percepção negativa quase dobrou, de 14% para 27%, e o "flow state" — o estado de imersão profunda — foi o que mais caiu. A correlação entre variação de flow e variação de produtividade ficou perto de zero. As pessoas sentem que entregam mais, e se sentem pior fazendo isso.
O trecho que dá nome à reflexão é o do "flow falso". Vella recupera de Csikszentmihalyi, o psicólogo que cunhou o conceito de flow, a ideia de um primo degenerado, o junk flow, ou dark flow: aquele transe que parece produtivo mas é o mesmo que prende alguém numa caça-níquel. Fazer prompt para uma IA pode se parecer com puxar a alavanca — às vezes acerta, às vezes devolve bobagem, e o ciclo continua atrás do próximo bom resultado. Ela toma emprestado ainda a distinção do filósofo Alasdair MacIntyre entre bens externos (output, status) e internos (a maestria, o prazer do ofício), e conclui que a IA é brilhante para os primeiros e potencialmente corrosiva para os segundos.
A tensão vale muito além do código. O ecossistema está construindo infraestrutura financeira com IA no meio do processo, e o alerta da pesquisa é que o número que sobe (a produção) pode esconder o número que desce (a experiência de quem produz), até virar burnout e rotatividade. O ponto que fica é que output e ofício não são a mesma coisa, e a diferença entre um produto que respeita quem o faz e um que extrai dele está exatamente em como cada escolha de design é feita.
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Leitura complementar entre IA, mercado e a infraestrutura ao redor
Acompanhe algumas notícias interessantes que valem dar um check:
Mira Murati lança seu primeiro modelo pós-OpenAI, o Inkling, totalmente open source
Reino Unido abre inquérito sobre as barreiras bancárias enfrentadas por empresas cripto
Presidente da Nigéria assina ordem executiva para harmonizar a regulação de ativos virtuais
Democratas incluíram proteções ao consumidor no CLARITY Act, diz executivo da Coinbase
Regulação, produto e adoção avançam em ritmos diferentes, mas reforçam a construção e alinhamento, aos poucos, de um dos elementos que mais se colocou como um desafio para a expansão do ecossistema: a interoperabilidade entre diferentes organizações, instituições e regulamentações.
Esta foi a Stable News, uma curadoria semanal para te deixar a par das últimas atualizações envolvendo stablecoins ao redor do globo.






