Stable News

O mapa do dinheiro não é o mapa do capital

A assimetria entre onde stablecoins são usadas e onde são construídas

Caio Barbosa

Fundador & CO-CEO

Forbes Under 30. Uma das principais vozes em Fintech & Crypto no Brasil. Escreve semanalmente sobre stablecoins, pagamentos e o futuro da infraestrutura financeira na América Latina.

Imagem de capa para o artigo do blog da Lumx: O mapa do dinheiro não é o mapa do capital
Imagem de capa para o artigo do blog da Lumx: O mapa do dinheiro não é o mapa do capital

Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.

Indo de encontro aos pontos trazidos na última edição e aos aprendizados da Stablecoin Conference, a semana ofereceu uma boa oportunidade de olhar para o mapa-múndi das stablecoins e perceber que ele está desenhado de forma torta. O volume real está em países emergentes, mas o capital de risco e os fundadores continuam concentrados em outros lugares. Em paralelo, três autoridades monetárias de peso se movimentaram em ritmos bem diferentes e, para fechar, uma interessante história sobre a relação entre o consumidor e as IAs.

O mapa de fundadores de stablecoin não bate com o mapa de volume

Em resumo:

  • Volume de stablecoin passou de US$ 28 trilhões em 2025, superando Visa e Mastercard somadas

  • Mercados emergentes geram a maioria do uso real, mas concentram só 32% das empresas rastreadas

  • Análise é de Alex Witt, General Partner da Verda Ventures, em ensaio opinativo publicado na Decrypt

Alex Witt, General Partner da Verda Ventures, publicou na Decrypt um ensaio que merece atenção. O argumento central é uma assimetria geográfica: o volume de transações em stablecoin cruzou US$ 28 trilhões em 2025, acima de Visa e Mastercard combinadas, mas a demanda real está concentrada em mercados que a maioria dos fundos de venture nunca visitou. A Nigéria tem mais de 26 milhões de usuários cripto, com 59% deles segurando USDT. Na Argentina, compras de stablecoin já representam mais da metade de todas as transações em exchanges. O Brasil registrou US$ 318,8 bilhões em inflows cripto até meados de 2025, com mais de 90% passando por stablecoins.

A construção de Witt é direta sobre onde mora o descompasso. A plataforma Stablescape rastreia mais de 3.000 empresas de stablecoin e cripto-fintech, e 1.300 delas estão nos Estados Unidos. Mercados emergentes inteiros, América Latina, África subsaariana, Sudeste Asiático e Oriente Médio, somam apenas 32% das empresas, apesar de gerarem a maior parte do volume do mundo real. A leitura dele é que a camada institucional ocidental já está disputada por BlackRock, JPMorgan e Fidelity, sobrando pouco espaço para startups. Onde há espaço de fato é na infraestrutura de on/off-ramp dos emergentes, onde 57% das empresas são fundadas localmente, com conhecimento de corredor que quem chega de fora leva anos para replicar.

O ponto que conecta com o que se observa semana após semana é a ideia de que, nesses mercados, a stablecoin não melhora um sistema que já funciona. Ela é o primeiro acesso confiável ao dólar para quem vive sob inflação de três dígitos, controle cambial ou bancos que falham. Witt cita o caso do El Dorado, super-app de stablecoin que cruzou 600 mil usuários e virou o app cripto mais baixado da Venezuela antes de receber capital de fundos como Multicoin e Coinbase Ventures. A sequência que ele aponta, volume primeiro, validação local depois, capital global por último, é exatamente o tipo de movimento que define quem opera com proximidade real ao corredor. Para quem constrói infraestrutura na América Latina, é uma confirmação de tese mais do que uma novidade.

Vale reforçar, nesse contexto, o Stablecoin Operator Map da Lumx: um mapa aberto, pensado para a comunidade, que visa mapear as empresas que estão transformando a América Latina. Clique aqui para visualizar.

Banco Central da China diz que precisa observar mais de perto o papel cross-border das stablecoins

Em resumo:

  • Wang Xin, diretor do Research Bureau do PBOC, pediu monitoramento mais próximo e coordenação internacional

  • Fala chega meses após a China banir emissão não autorizada de stablecoins em yuan (fev/26)

  • Mercado de stablecoins recuou para ~US$ 315 bilhões após bater US$ 322 bilhões

O Banco Popular da China (PBOC) sinalizou que está prestando mais atenção às stablecoins à medida que elas ganham peso no sistema monetário internacional. Wang Xin, diretor-geral do Research Bureau do PBOC, pediu às autoridades que monitorem de perto o impacto das stablecoins enquanto melhoram a coordenação e a regulação internacional, segundo reportou o veículo chinês The Paper. Nas palavras dele, é preciso atenção a "se as stablecoins vão desempenhar um papel mais importante nos pagamentos cross-border, e como a regulação, a coordenação e a cooperação internacional devem proceder". Ele também alertou para o risco de uma eventual "weaponization" dos pagamentos atrapalhar transações transfronteiriças normais.

O contexto importa para entender o tamanho do movimento. Wang defendeu supervisão mais forte e exploração cautelosa, mas não endossou stablecoins nem anunciou mudança de política. A fala chega meses depois de a China, em 6 de fevereiro, ter banido a emissão não autorizada de stablecoins atreladas ao renminbi e de ativos do mundo real tokenizados, regra que valeu para entidades domésticas e estrangeiras, cobrindo versões onshore e offshore do yuan e reforçando a preferência do país por dinheiro digital controlado pelo Estado.

A leitura que interessa é a do tom. Quando a segunda maior economia do mundo, que historicamente preferiu o caminho do CBDC soberano, passa a reconhecer publicamente que precisa observar o papel das stablecoins privadas no cross-border, trata-se da admissão de que o instrumento já atingiu escala sistêmica global. Vale lembrar que, segundo dados da CEX.io citados na reportagem, o volume de transações em stablecoin superou US$ 28 trilhões no primeiro trimestre, ainda que a casa estime que cerca de 76% desse volume seja gerado por bots. O mercado total recuou para perto de US$ 315 bilhões depois de tocar US$ 322 bilhões. A China observando de fora é, em si, um sinal de quão central a infraestrutura se tornou.

SBI compra a Bitbank por US$ 289 milhões e amplia seu ecossistema de ativos digitais no Japão

Em resumo:

  • Acordo de 46,7 bilhões de ienes (US$ 289 milhões) cria a maior corretora cripto do Japão

  • Combinada com a SBI VC Trade, soma ~1,1 trilhão de ienes sob custódia e ~2,92 milhões de contas

  • Na mesma semana, SBI lançou a stablecoin em iene JPYSC e, com a Ripple, o RLUSD no país

Como abordado na edição #133, a possível aquisição da Bitbank pela SBI Holdings era um sinal de que Japão e Coreia do Sul estavam construindo posições paralelas como hubs asiáticos de stablecoin. Agora o movimento ganhou contorno definitivo: a SBI assinou acordos para assumir o controle total da Bitbank em uma transação de 46,7 bilhões de ienes, cerca de US$ 289 milhões, criando a maior corretora cripto do país. A operação deve fechar por volta de outubro, sujeita a aprovação regulatória. Combinando a Bitbank com a SBI VC Trade, o grupo passa a ter aproximadamente 1,1 trilhão de ienes sob custódia e cerca de 2,92 milhões de contas cripto.

A aquisição é a peça mais visível de um ecossistema que a SBI vem montando em camadas. Em fevereiro, a empresa lançou com a Startale a Strium, uma blockchain layer-1 desenhada para liquidação 24/7 de ações tokenizadas e ativos do mundo real. E a corretora não chega sozinha ao tabuleiro de stablecoins: na mesma semana do anúncio, a SBI e a Startale lançaram a JPYSC, stablecoin atrelada ao iene emitida pelo SBI Shinsei Trust Bank, inicialmente restrita a transferências dentro das contas da SBI VC Trade até que pendências legais e tributárias sejam resolvidas para a circulação em blockchain pública.

O detalhe que fecha o quadro é a chegada do dólar tokenizado pela mesma porta. No mesmo dia, a Ripple e o SBI Group lançaram o RLUSD no Japão, também via SBI VC Trade, com o token ficando disponível para clientes institucionais e de varejo após aprovação sob o arcabouço japonês para stablecoins emitidas no exterior. A montagem completa, então, é de um único grupo financeiro oferecendo corretora regulada, blockchain de settlement, stablecoin em moeda local e dólar tokenizado, tudo sob o mesmo teto. É o desenho de hub asiático que o Japão vem perseguindo há mais de um ano, agora com distribuição concreta.

Bank of England publica regras de stablecoin e abre caminho para lançamento em 2027

Em resumo:

  • Emissores de stablecoins sistêmicas poderão manter até 70% das reservas em dívida pública remunerada, ante 60% da proposta anterior

  • Limites de holding foram substituídos por um teto temporário de emissão de £40 bilhões (US$ 52,8 bi)

  • Reino Unido mira finalizar o rulebook até o fim de 2026 para um lançamento em 2027

Na edição #131 foi abordado que o Bank of England havia admitido ter sido conservador demais e sinalizado que flexibilizaria suas regras. Agora o recuo virou texto: o BoE publicou uma declaração de política e regras preliminares para stablecoins sistêmicas, aquelas amplamente usadas em pagamentos e que podem representar risco à estabilidade financeira do país. Os emissores poderão manter até 70% das reservas em dívida pública remunerada, acima dos 60% da proposta anterior, e os limites de holding individuais foram trocados por um teto temporário de emissão de £40 bilhões, cerca de US$ 52,8 bilhões. O banco indicou que essa salvaguarda será revisada regularmente e removida quando os riscos à oferta de crédito estiverem endereçados.

O movimento substitui os limites propostos na consulta de novembro de 2025, que teriam restringido indivíduos a £20 mil e empresas a £10 milhões por stablecoin. Na época, o BoE argumentava que os limites eram necessários para evitar uma saída em larga escala de depósitos do sistema bancário, capaz de reduzir a oferta de crédito. A nova abordagem busca o mesmo objetivo de política permitindo uso irrestrito por famílias e empresas. Katie Harries, head de política da Coinbase para a Europa, observou que o Reino Unido é hoje o único país a impor teto de emissão à stablecoin de sua própria moeda, e deixou duas perguntas no ar: o que "temporário" significa na prática, e se essas stablecoins poderão ser usadas para settlement nos mercados de atacado, sem o qual as ambições de tokenização do país não se concretizam.

A leitura mais ampla conecta o Reino Unido ao mesmo tabuleiro regulatório acompanhado nas últimas semanas. Mark Fairless, CEO da ClearBank, classificou o recuo nos limites como passo positivo, mas alertou que ainda falta avançar nas exigências de lastro para não restringir modelos de negócio sustentáveis, e que o ideal seria um arcabouço de fato baseado em risco, "sob pena de o Reino Unido deixar as stablecoins em libra na linha de largada enquanto outros mercados avançam". O regime se aplicará apenas às stablecoins consideradas sistêmicas, com as demais permanecendo sob supervisão da FCA. Com o rulebook mirando o fim de 2026 e o lançamento previsto para 2027, Londres entra de forma mais clara na corrida que já tem EUA, União Europeia e Ásia em campo.

Consultores de TradFi preferem stablecoins e tokenização a Bitcoin, diz Bitwise

Em resumo:

  • Matt Hougan, CIO da Bitwise, falou com mais de 40 consultores de grandes instituições

  • Eles seguem interessados em cripto, mas com "muito mais curiosidade" por stablecoins e tokenização do que por Bitcoin

  • SEC estuda permitir trading de ações tokenizadas, o que pode reforçar o apetite institucional

Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, relatou em nota que conversou recentemente com mais de 40 consultores de algumas das maiores instituições financeiras e que eles estão "mais interessados hoje em stablecoins e tokenização do que em Bitcoin". Segundo ele, foi "bem difícil engajar os consultores em Bitcoin esta semana", enquanto em chamada após chamada havia muito mais curiosidade sobre as aplicações reais de cripto que vêm remodelando desde os mercados de capitais até os pagamentos globais.

O pano de fundo ajuda a entender por que a conversa mudou. Stablecoins e tokenização capturaram a atenção de Wall Street justamente num momento em que o Bitcoin perdeu fôlego, acumulando queda de quase 30% no ano. A tokenização ainda pode ganhar tração adicional com a SEC, que estaria planejando permitir o trading de ações tokenizadas, algo que daria mais confiança ao investidor tradicional. Hougan resume o ambiente de forma concreta: é difícil ligar a CNBC e não ver alguém como o presidente da SEC Paul Atkins, o CEO da Goldman David Solomon ou o CEO da BlackRock Larry Fink falando de stablecoins e tokenização, e os investidores querem fazer parte disso.

A leitura para quem constrói infraestrutura é a parte mais relevante. A tese de Hougan é que a próxima onda de adoção pode vir justamente de consultores e investidores institucionais formando uma nova classe de capital cripto, com dinheiro fluindo para stablecoins e tokenização em vez de para ativos especulativos. É a mesma direção que aparece nas outras histórias da semana, vista agora do lado da alocação: o interesse institucional está migrando da exposição a preço para a exposição à utilidade. Quando o aparato de wealth management dos EUA passa a tratar stablecoin como categoria de interesse próprio, a camada de competição se desloca para quem oferece o trilho por baixo.

Para Ler

Para quem cria conteúdo, vende ou depende de ser encontrado, vale entender como os mecanismos de IA decidem o que citar.

O consultor de SEO Suganthan Mohanadasan passou dois dias lendo o tráfego de rede bruto que o ChatGPT envia ao próprio navegador, não os textos de saída, mas o JSON por baixo deles, para mapear como o produto escolhe suas fontes. O achado mais útil é estrutural: existe um campo interno que carimba cada resultado com a origem da busca, e parte das perguntas (as classificadas como text) nunca chega à web, sendo respondida direto do corpus de treino. Ou seja, há uma camada inteira de consultas em que nenhuma página, por melhor que seja, consegue entrar. Ele mostra ainda a diferença entre ser buscado, ser citado e ser mencionado, três coisas distintas que se ganha ou se perde separadamente.

O paralelo com pagamentos é instrutivo. Assim como uma camada de "answer engine" se interpõe entre o usuário e a fonte e redefine quem captura a atenção, uma camada de máquina vem se interpondo entre quem paga e quem recebe e redefinindo quem captura o valor. Em ambos os casos, a lição é a mesma: a disputa não está mais no produto que o usuário vê, e sim na infraestrutura que ele não vê.

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História da Semana

Os consumidores estão cansados de ouvir falar de IA, e isso já mexe com quem anuncia.

Uma pesquisa da The Harris Poll com a 4As e a Infillion, apresentada no Cannes Lions e divulgada com exclusividade pela Marketing Brew, encontrou que mais de dois terços dos consumidores globais veem a IA majoritariamente como um "golpe de marketing". O número que chama atenção: 78% acham que a IA deixa os anúncios "menos autênticos" e a mesma proporção considera as marcas "cringe" quando exageram no uso da tecnologia. Quando o assunto é publicidade gerada por IA, 63% dizem que comprariam com menos probabilidade de uma marca que usa esse tipo de anúncio, e 73% confiariam menos em uma peça que suspeitassem ter sido feita por IA.

O dado de fundo é uma fadiga generalizada. Mais da metade dos entrevistados concorda que ouve tanto sobre IA que "começou a incomodar", e cerca de dois terços adorariam que as marcas nunca mais mencionassem "marketing de IA sem sentido". O detalhe irônico é que tudo isso acontece enquanto o uso da tecnologia dispara dentro da própria indústria: mais da metade dos profissionais já usa IA para geração de ideias e cerca de metade para criação de peças visuais. Algumas marcas leram o sinal e foram na direção oposta, a Apple, por exemplo, passou a enfatizar bastidores de propaganda "feita à mão".

O contraste é útil para quem trabalha com tecnologia financeira. O ecossistema está construindo trilhos programáveis e infraestrutura cada vez mais invisível, e a tentação de carimbar tudo com o selo da moda é real. A pesquisa é um lembrete de que a confiança do usuário não vem do rótulo da tecnologia, vem do problema que ela resolve sem fazer barulho. Em finanças, talvez a melhor stablecoin seja aquela que o usuário nem percebe que está usando.

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Leitura complementar entre IA, mercado e a infraestrutura ao redor

Acompanhe algumas notícias interessantes que valem dar um check:

O mapa do dinheiro real e o mapa do capital seguem desalinhados  e é nessa assimetria que se define quem vai construir a próxima camada de infraestrutura global de stablecoins.

Esta foi a Stable News, uma curadoria semanal para te deixar a par das últimas atualizações envolvendo stablecoins ao redor do globo.

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