Stable News

As stablecoins movimentaram US$ 1,79 trilhão em um único mês

Novo recorde de volume chega em pleno bear market cripto

Caio Barbosa

Fundador & CO-CEO

Forbes Under 30. Uma das principais vozes em Fintech & Crypto no Brasil. Escreve semanalmente sobre stablecoins, pagamentos e o futuro da infraestrutura financeira na América Latina.

Imagem de capa do artigo do blog da Lumx: Stablecoins movimentaram US$ 1,79 trilhão em um único mês
Imagem de capa do artigo do blog da Lumx: Stablecoins movimentaram US$ 1,79 trilhão em um único mês

Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.

Se a última edição mostrou que o mapa do dinheiro e o mapa do capital ainda não coincidem, esta semana chegaram os números que dizem para onde o uso real está correndo. O volume de stablecoins bateu novo recorde, as empresas aceleraram a adoção em pagamentos internacionais e um grupo de gigantes financeiros se juntou para lançar a própria moeda digital. Em paralelo, a régua regulatória avançou de Taiwan à Europa.

Volume de stablecoins bate recorde de US$ 1,79 trilhão em junho, diz a Visa

Em resumo:

  • Volume ajustado de transações em stablecoin chegou a US$ 1,79 trilhão em junho, alta de 63% sobre maio, segundo a Visa

  • USDC concentrou cerca de 67% do total (US$ 1,21 tri); USDT ficou com 32% (US$ 576 bi)

  • Recorde veio em pleno bear market cripto, com Base e Ethereum liderando entre as redes

O volume ajustado de transações em stablecoin atingiu US$ 1,79 trilhão em junho, alta de 63% sobre os US$ 1,1 trilhão de maio, segundo o painel de analytics da Visa alimentado pela Allium. O número superou o recorde anterior, de US$ 1,78 trilhão em fevereiro, e representa alta de 125% na comparação anual. A USDC da Circle respondeu por cerca de 67% do volume, com US$ 1,21 trilhão no mês, enquanto a USDT da Tether ficou com aproximadamente 32%. Entre as redes, a Base (L2 da Coinbase sobre Ethereum) liderou com US$ 565 bilhões, seguida de perto pela própria Ethereum e pela Tron.

O detalhe que dá peso ao dado é a metodologia. A Visa desenvolveu, junto com Artemis, Allium Labs e Castle Island Ventures, um cálculo ajustado que filtra "métricas que distraem", como bots de alta frequência, rebalanceamento de tesouraria de exchanges e transações repetidas de contratos inteligentes. É uma tentativa de chegar ao que seria a atividade orgânica, não o volume bruto inflado por automação. Quando comparado com as cifras brutas que circularam nos últimos meses (a casa dos trilhões anuais superando Visa e Mastercard somadas), a leitura ajustada é mais conservadora e, por isso mesmo, mais útil para entender uso real.

A leitura de mercado é que o recorde veio apesar do bear market cripto, o que reforça a tese de stablecoin como infraestrutura de transferência de valor que independe do preço dos ativos. Nick Ruck, diretor da LVRG Research, resumiu para a Cointelegraph que o surto "ressalta o papel crescente das stablecoins como infraestrutura essencial" que persiste mesmo sem movimento especulativo.

Cybrid: 42% das empresas já usam stablecoin para pagar no exterior

Em resumo:

  • 42% das empresas pesquisadas já usam stablecoin em pagamentos cross-border; 88% pretendem usar nos próximos 12 meses

  • Economia média de 35% no custo de pagamento internacional, chegando a 47% para quem move mais de US$ 100M/mês

  • Clareza regulatória é o principal fator para expandir o uso, citado por 71% dos respondentes

A firma de infraestrutura de pagamentos Cybrid divulgou um relatório mostrando que 42% das empresas pesquisadas já usam stablecoin em pagamentos cross-border, e que 88% se dizem propensas a usar nos próximos 12 meses. Apenas 2% se identificaram como usuárias comprometidas exclusivamente com trilhos tradicionais. As empresas relataram economia média de 35% no custo de pagamento internacional, número que sobe para 47% entre as que processam mais de US$ 100 milhões por mês. O levantamento ouviu 468 executivos e líderes de negócio nos EUA, Canadá e Reino Unido, entre o fim de abril e o início de maio.

Como abordado na edição #134 com os dados da Paybis, o pagamento empresarial se consolidou como vetor dominante de stablecoin, e o relatório da Cybrid reforça a mesma direção por outro ângulo. Os casos de uso mais citados foram pagamento de folha e de prestadores, seguidos de pagamento a fornecedores, a clientes, geração de yield e gestão de tesouraria. O próprio relatório recupera a estimativa da McKinsey de que transações B2B responderam por cerca de 60% dos US$ 390 bilhões em pagamentos globais com stablecoin em 2025. A foto que se forma é de uma ferramenta que saiu do varejo especulativo e entrou no fluxo de caixa corporativo.

O dado que mais interessa para quem opera infraestrutura é o gargalo apontado pelas empresas. Clareza regulatória foi citada por 71% como o fator mais importante para ampliar o uso, acima de infraestrutura confiável ou integração com sistemas existentes. É a confirmação de que, nesse estágio, a barreira deixou de ser tecnológica e passou a ser de confiança institucional. Onde a régua regulatória fica clara, a adoção destrava — e é exatamente por isso que os movimentos legislativos cobertos abaixo, de Taiwan à Europa, importam tanto para o ritmo de crescimento.

Mais de 140 empresas se unem por uma stablecoin que devolve o rendimento das reservas

Em resumo:

  • A Open Standard lançou a Open USD (OUSD), com apoio de mais de 140 empresas, incluindo Visa, Mastercard, Coinbase, Stripe e Ripple

  • Empresas poderão emitir a OUSD sem custo e reter o rendimento das reservas do token

  • Ação da Circle caiu mais de 16% no dia; a OUSD deve chegar ainda este ano e mira USDT e USDC

Mais de 140 empresas assinaram um projeto de stablecoin lastreada em dólar que permite aos participantes "receber todo o rendimento" das reservas. Em comunicado, a Open Standard anunciou o lançamento da Open USD (OUSD), apoiada por empresas financeiras como Visa e Mastercard e por casas cripto como Coinbase, Ripple, OKX e Bybit. O projeto vai permitir que negócios emitam a OUSD "sem custo e sem limites artificiais de volume", mantendo o rendimento gerado pelas reservas do token. A previsão é de lançamento ainda em 2026.

O ponto que muda a conversa é o desenho econômico. Nas duas maiores stablecoins do mercado, o rendimento das reservas (os juros dos títulos que lastreiam o token) fica com o emissor. A proposta da OUSD é devolver essa receita a quem detém e distribui a moeda, o que ataca diretamente a fonte de lucro de USDT e USDC. Não à toa, a ação da Circle caiu mais de 16% no dia do anúncio, fechando a US$ 63,63. Will Harborne, CEO da Rhino.fi, capturou a ambiguidade do movimento ao dizer que a OUSD "é o primeiro lançamento com chance real de tomar participação de USDT e USDC, porque a receita das reservas volta para todos que a seguram", ainda que esse mesmo incentivo seja o que "gera fragmentação em escala".

Como acompanhado desde a edição #132, com a USDF da Coinbase/Flipcash e a USDPT da Western Union, a camada de competição já vinha se deslocando da emissão para a distribuição. A OUSD leva isso um passo adiante e move a disputa para a economia das reservas. Jeremy Allaire, CEO da Circle, respondeu que a empresa recebe bem "a inovação e a competição contínuas no espaço" e que em breve vai expandir suporte a stablecoins em dólar e em outras moedas. Com o mercado total em torno de US$ 312 bilhões e projeções do Citi que chegam a US$ 4 trilhões até 2030, a briga por quem captura o rendimento das reservas promete ser um dos eixos centrais dos próximos anos.

Taiwan aprova lei ampla de cripto com regras para stablecoins

Em resumo:

  • O Legislative Yuan aprovou o Virtual Asset Service Act em 30/06, em terceira leitura; segue para sanção presidencial

  • Todos os provedores de serviços de ativos virtuais precisarão de licença da FSC; emissores de stablecoin precisam de aval do banco central e reservas integrais em trust

  • Operar sem licença pode render até 7 anos de prisão e multa de até NT$ 100 milhões (cerca de US$ 3,1 milhões)

Taiwan aprovou uma das leis de cripto mais abrangentes da Ásia, saindo de um registro leve para a supervisão financeira plena do setor. O Legislative Yuan aprovou o Virtual Asset Service Act em 30 de junho, em terceira leitura, e o texto segue agora para o presidente Lai Ching-te, que deve promulgá-lo em até dez dias. A lei tira as empresas de cripto do regime que exigia apenas procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro e as coloca sob fiscalização ampla da Financial Supervisory Commission, cobrindo desde controles internos e cibersegurança até o processo de listagem de ativos e a segregação dos recursos dos clientes.

Os emissores de stablecoin enfrentam uma barreira mais alta. Emitir uma stablecoin no país passa a exigir tanto o consentimento do banco central quanto a autorização da FSC, e os emissores terão de manter reservas integrais depositadas em trust, com auditorias regulares e divulgação pública. As penalidades são severas: operar uma plataforma sem licença ou emitir stablecoins sem autorização pode levar a até sete anos de prisão e multas de até NT$ 100 milhões, cerca de US$ 3,1 milhões, enquanto fraude ou manipulação de mercado pode chegar a dez anos.

Com o movimento, Taiwan entra no grupo de jurisdições que tiraram cripto da margem regulatória e a levaram para dentro das finanças licenciadas. Como mapeado nas edições sobre Ásia (o Japão nas #132 e #133, a Coreia do Sul na #131), o eixo asiático segue construindo trilhos regulados de forma acelerada. Para emissores e fintechs que operam multi-jurisdição, cada nova lei desse tipo tem o mesmo efeito duplo: eleva o custo de compliance e, ao mesmo tempo, aumenta a previsibilidade que as empresas dizem precisar para adotar.

Stablecoins em euro sob MiCA crescem 128%, mas ainda são 0,22% do mercado em dólar

Em resumo:

  • O market cap das oito stablecoins em euro compatíveis com a MiCA subiu 128% em um ano, para US$ 673,9 milhões, segundo a Decta

  • Ainda representam apenas 0,22% do mercado de stablecoins em dólar, de cerca de US$ 300 bilhões

  • O dado fecha poucos dias antes do fim do período de transição para provedores (CASP) da MiCA, em 1º de julho

A capitalização das stablecoins em euro compatíveis com a MiCA cresceu 128% no ano que antecedeu o fim do período de transição da regulação, segundo a firma de infraestrutura de pagamentos Decta. O market cap combinado de oito tokens subiu para US$ 673,9 milhões em 28 de junho de 2026, ante US$ 295,6 milhões um ano antes, enquanto o volume de negociação avançou 43%. O crescimento é consistente, mas parte de uma base pequena: o conjunto representa apenas 0,22% do mercado de stablecoins em dólar, que ronda os US$ 300 bilhões.

O relatório alimenta um debate acompanhado de perto na edição #132. De um lado, um estudo do Blockchain for Europe argumentou que a MiCA tornou as stablecoins em euro mais seguras, porém comercialmente mais fracas, por conta das exigências de reserva e da proibição de pagar juros. De outro, um paper do think tank Bruegel pediu flexibilização das regras de liquidez e até acesso a funding do BCE para os emissores competirem com os tokens dolarizados. O Banco Central Europeu rebateu, alertando que expandir a emissão de stablecoins em euro poderia enfraquecer o crédito bancário e complicar a política monetária.

A tensão é a mesma que estrutura o "mapa torto" da edição passada. A Europa concentra parcela relevante do uso global de stablecoins, mas quase toda a oferta é em dólar, e as regras que tornam o euro tokenizado seguro são também as que o mantêm pequeno. O número da Decta mostra que o mercado existe e cresce sob a MiCA; a pergunta que segue aberta é se ele conseguirá escala sem que a Europa reabra a discussão sobre o próprio arcabouço. Com o fim da janela de transição em 1º de julho, essa conversa tende a esquentar no segundo semestre.

Para Ler

Para quem acompanha como marcas aparecem (ou não) nas respostas de IA, este texto derruba uma métrica da moda.

Ann Smarty, na Practical Ecommerce, argumenta que os "scores de visibilidade em IA" vendidos por ferramentas como Profound e Peec AI são pouco úteis. O problema é que a pontuação depende inteiramente dos prompts escolhidos e é facilmente manipulável: basta o prompt já conter o nome da marca para o score subir a 100% e inflar a média. Ela propõe olhar para sinais mais honestos, como quais domínios são de fato citados através de várias plataformas, quais páginas de concorrentes aparecem e as diferentes formas de uma marca ser mencionada.

O paralelo com o que se observa nesta edição é direto. Toda a discussão sobre volume de stablecoin esbarra no mesmo ponto: a metodologia ajustada da Visa existe justamente para separar atividade orgânica do ruído de bots, assim como uma boa métrica de IA precisa medir o que o usuário realmente digita, e não o prompt fabricado. Em finanças ou em busca, a disciplina é a mesma: desconfiar do número bonito que mede a coisa errada.

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História da Semana

O Google publicou o próprio manual de como elimina "AI slop" em escala, e o gatilho não é a IA em si.

A agência NoGood destrinchou um paper de pesquisa do Google que descreve um sistema, apelidado de S-CTS, para detectar conteúdo sintético de baixa qualidade em escala industrial, já em operação em uma grande plataforma de vídeo. A virada conceitual é o que chama atenção. Durante duas décadas, a moderação avaliou o artefato, a página ou o vídeo individual, e todo o jogo de SEO era otimizar esse artefato para passar no teste. O novo sistema avalia o comportamento por trás do conteúdo: a coordenação, a velocidade de publicação, a repetição de templates e a impressão digital compartilhada por uma rede de contas. Quando um cluster inteiro aparece empurrando o mesmo material gerado em massa, o Google derruba o cluster todo de uma vez.

O detalhe mais revelador é o que a NoGood chama de "teto do slop". Mesmo com mais da metade dos novos artigos da web já sendo gerados principalmente por IA, apenas cerca de 14% dos resultados no topo do Google e algo entre 18% das citações em assistentes como ChatGPT e Perplexity vêm de conteúdo sintético. A oferta é gigante, a recompensa é pequena, e a diferença é o mecanismo de recuperação já discriminando contra o conteúdo produzido em massa. O sistema é calibrado para preservar o criador individual que usa IA como ferramenta e mirar apenas a operação coordenada.

A lição atravessa domínios. O ecossistema está construindo dinheiro programável e infraestrutura cada vez mais invisível, e a tentação de perseguir volume pelo volume é real em qualquer camada. O que o paper do Google sugere, no fim, é que a coordenação em massa deixou de ser vantagem e virou um sinal de alerta, enquanto a contribuição original é o que sobrevive. É a mesma régua que separa o volume de bots do uso real de uma stablecoin: substância pesa mais do que movimento.

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Leitura complementar entre IA, mercado e a infraestrutura ao redor

Acompanhe algumas notícias interessantes que valem dar um check:

US$ 1,79 trilhão em um único mês, em pleno bear market, é o tipo de número que encerra o debate sobre se stablecoins são infraestrutura ou especulação.

Esta foi a Stable News, uma curadoria semanal para te deixar a par das últimas atualizações envolvendo stablecoins ao redor do globo.

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