Tether e Circle somavam quase US$ 150 bilhões em títulos do Tesouro americano no fim de 2025, segundo dados apresentados por uma integrante do Comitê de Política Financeira do Banco da Inglaterra.
Nos Estados Unidos, o Senado rejeitou por 49 a 50 a moção que levaria a CLARITY Act ao plenário, deslocando a produção de regras do Congresso para a SEC e a CFTC.
Na Europa, os bancos dobraram sua presença no registro do MiCA e já representam quase um quarto dos prestadores autorizados, enquanto o Sistema Europeu de Bancos Centrais pede mudança na regra de reservas.
Nossa série de artigos na Exame
Nathaly Diniz, CRO da Lumx, publica uma série de artigos na Exame em coautoria com parceiros e clientes do ecossistema. O primeiro dos dois mais recentes, escrito com Juliana Schlesinger Felippe, Managing Director Brazil & Latam da OSL, trata da licença como ativo escasso: das mais de 1.200 empresas com registro nacional na Europa, cerca de 210 obtiveram autorização plena do MiCA, uma taxa de 17%. O texto compara o filtro europeu com o desenho brasileiro que entra em vigor no fim de outubro, destacando que, enquanto o MiCA olha a stablecoin pela ótica do emissor, a Resolução 521 incluiu as operações no mercado de câmbio.
O segundo, com João Pedro Menegotto, chefe para a América Latina da Levl, analisa por que quatro dos cinco países que mais adotam criptoativos são emergentes e por que cada um adota por um motivo distinto. Na América Latina a stablecoin cumpre função de proteção patrimonial, com mais da metade das compras de criptoativos na Argentina já em stablecoin. Na Ásia emergente ela move renda, com as Filipinas recebendo mais de US$ 35 bilhões anuais em remessas e o Vietnã pagando prêmio de 3% a 5% pelo dólar onchain. O ponto comum é a última milha, já que nenhuma remessa termina em dólar digital.
Os emissores de stablecoin viraram compradores estruturais da dívida americana
Em resumo:
Tether e Circle somavam quase US$ 150 bilhões em títulos do Tesouro americano no fim de 2025, com compras de cerca de US$ 33 bilhões no ano.
Para Carolyn Wilkins, do Comitê de Política Financeira do Banco da Inglaterra, as stablecoins em dólar ampliam a demanda por essa dívida e reforçam a posição da moeda americana.
O dólar responde por 98% do valor das stablecoins em circulação, em um mercado acima de US$ 300 bilhões.
Wilkins apresentou os dados em palestra na Queen's University Belfast, argumentando que a stablecoin em dólar facilita a liquidação transfronteiriça, amplia o acesso a ativos atrelados ao dólar fora dos Estados Unidos e aumenta a demanda por títulos do Tesouro mantidos como reserva.
O volume acumulado por dois emissores privados os coloca em faixa comparável à de países de porte médio entre os detentores de dívida americana, o que amplia o enquadramento do tema para além de custo de transação. Wilkins apontou também o risco na direção oposta, já que uma onda de resgates forçaria venda rápida de títulos e amplificaria a volatilidade em um mercado sob estresse. A avaliação parte de um banco central que constrói o próprio arcabouço para a libra e reconhece publicamente a vantagem da moeda americana nesse mercado.
Com a CLARITY Act travada, SEC e CFTC passam a escrever as regras
Em resumo:
O Senado rejeitou por 49 a 50 a moção de procedimento que levaria a CLARITY Act ao plenário, abaixo dos 60 votos necessários.
Todos os democratas presentes votaram contra, acompanhados dos republicanos Susan Collins, Josh Hawley e Jerry Moran.
A SEC publicou uma isenção de inovação para ações tokenizadas e a CFTC enviou sua própria proposta de regras à Casa Branca.
O Senado rejeitou a moção após mais de um ano de negociação bipartidária, com um texto final que, segundo os republicanos, incorporava 126 mudanças solicitadas pelos democratas. Thom Tillis mudou seu voto para não por razão procedimental, preservando a possibilidade de retomada futura.
O centro de gravidade se deslocou para as agências. A SEC publicou a isenção de inovação que abre caminho para ações americanas tokenizadas, com o presidente Paul Atkins ligando a medida ao resultado da votação, enquanto a CFTC emitiu posição de no-action para provedores passivos de software e enviou proposta mais ampla à Casa Branca. A diferença relevante é de durabilidade, já que norma de agência é revisável pela administração seguinte, o que encurta o horizonte de planejamento de quem estrutura operação nos Estados Unidos. Dias depois, a super PAC Fairshake confirmou gasto de US$ 30 milhões contra o ex-senador Sherrod Brown em Ohio, nas eleições de 3 de novembro.
Bancos dobraram de número no registro do MiCA e já são quase um em cada quatro
Em resumo:
O número de bancos no registro do MiCA dobrou, de cerca de 40 para cerca de 80 entre 26 de junho e 16 de setembro.
O total de prestadores autorizados subiu de 243 para 349, com a fatia dos bancos passando de cerca de 17% para quase 23%.
Bancos entram por caminho próprio, via notificação ao regulador nacional, sem o processo padrão de autorização.
A análise dos dados da ESMA mostra que os prestadores não bancários seguem maioria e cresceram em número absoluto, mas caíram de cerca de 84% para 77% do registro em termos relativos.
A velocidade se explica pelo mecanismo. Instituições de crédito já autorizadas podem prestar serviços de criptoativos pelo Artigo 60, enviando as informações exigidas ao regulador de origem com pelo menos 40 dias úteis de antecedência. Para quem fornece infraestrutura, a composição do registro altera o perfil da demanda, já que instituição de crédito chega com exigências de auditoria, trilha de compliance e integração com sistema legado.
A Alemanha avança em adoção enquanto o Reino Unido fica para trás
Em resumo:
A Alemanha tem 89 prestadores licenciados, equivalente a 25,5% de todo o registro MiCA da ESMA.
Segundo Luke Nolan, da CoinShares, a adoção alemã avança por family offices, gestores de patrimônio e assessores individuais.
O Deutsche Bank aguarda aprovação regulatória para lançar custódia de ativos digitais institucional, com licença esperada para outubro.
Nolan avaliou que o Reino Unido segue atrás pelo ritmo regulatório, já que a FCA levantou a proibição de produtos negociados em bolsa para o varejo há menos de um ano.
O Deutsche Bank anunciou suporte inicial a Bitcoin, Ether e algumas stablecoins, incluindo USDC, EURC e EURAU. O registro também absorveu dezenas de Volksbank, Raiffeisenbank e VR Bank, levando o serviço regulado à rede cooperativa regional. No Reino Unido, a FCA abre solicitações em 30 de setembro, com prazo até 28 de fevereiro de 2027 para arranjo transitório e entrada em vigor do regime em 25 de outubro de 2027.
Bancos centrais do euro querem trocar a exigência de depósito bancário por limites de liquidez
Em resumo:
O Sistema Europeu de Bancos Centrais pediu a remoção da regra que obriga ao menos 30% das reservas, ou 60% para stablecoins significativas, a ficarem em depósitos bancários.
No lugar, propôs limites mínimos de liquidez com ativos vencendo em um e em cinco dias úteis.
A justificativa é que a regra atual cria ligação direta entre emissores e bancos e pode gerar risco de liquidez em caso de corrida.
O pedido consta da resposta do ESCB à revisão do MiCA conduzida pela Comissão Europeia. Como alternativa, foram apontadas operações compromissadas de um dia e títulos soberanos de curto prazo, além da minuta da EBA de 2024 que exige 40% em um dia útil e 60% em cinco para stablecoins significativas.
A proposta inverte o eixo do debate observado nos Estados Unidos, onde o setor bancário argumenta que a stablecoin drena depósito. Aqui o risco apontado é o oposto, já que a regra obriga o emissor a manter reserva em depósito bancário e uma corrida no emissor se converteria em saque relâmpago no banco. Para emissores sob MiCA, a mudança teria efeito direto na composição de reserva, abrindo espaço para instrumentos de rendimento melhor e reduzindo a dependência de contraparte bancária específica.
Para ler
A Email Love publicou um guia sobre monitoramento de e-mail de concorrentes com utilidade que ultrapassa o canal. Lululemon e Old Navy disparam volume semelhante, 4,7 e 4,3 e-mails por semana, mas 95% dos assuntos da Old Navy trazem oferta ou preço contra 11% da Lululemon, e a Old Navy envia 72% em fins de semana contra 10% da concorrente. A análise cobre 628 e-mails na mesma janela de 180 dias e é transparente sobre os limites do método, incluindo o fato de que uma caixa de entrada recebe apenas parte dos disparos. → Ler
História da semana
A Sony argumenta em tribunal que jogadores não são donos dos jogos digitais que compraram, o que reabre uma discussão antiga sobre propriedade digital. Em 2009, cópias de 1984 foram apagadas remotamente de Kindles por questão de direitos, e obras de Roald Dahl, Agatha Christie e R.L. Stine foram posteriormente editadas à distância. Primavera De Filippi, diretora de pesquisa do CERSA, explica que a compra de um ativo digital gera um registro revogável no banco de dados da plataforma, sem as proteções do direito de propriedade contra apreensão arbitrária. O artigo discute se a tokenização resolve o problema e conclui que ainda não. Certificados de propriedade que apontam para arquivos hospedados em servidor de empresa mantêm a dependência, e registros públicos impedem o controle exclusivo sobre o conteúdo. O raciocínio se aplica igualmente a dinheiro, já que saldo em plataforma também é registro em banco de dados de terceiro. → Ler
Leitura complementar entre IA, mercado e a infraestrutura ao redor
Esta foi a Stable News, uma curadoria semanal para te deixar a par das últimas atualizações envolvendo stablecoins ao redor do globo.





