Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.
A edição de hoje chega diretamente do México, condensando uma semana inteira de conversas realizadas na segunda Stablecoin Conference da Bitso Business, nos dias 15 e 16 de junho, na Cidade do México.
A Lumx esteve presente com Caio Barbosa (CEO), Nathaly Diniz (CRO) e Pedro Delgado (Head de Content e Partnerships). Caio atuou também como correspondente da BP Money. E foi nesse papel, com tempo para conversar com quem está construindo, que ficou claro, conversa após conversa, o tamanho do salto que o mercado deu de um ano para cá.
Um ano, outro tom
A virada já estava presente no palco principal desde o início da conferência. Se na estreia o assunto era sobre potencial e perspectivas, desta vez a sensação era de quem chega para mostrar resultado. Daniel Vogel, CEO e fundador da Bitso, abriu o evento com os números do relatório que a empresa lançou ali mesmo, o Stablecoin Landscape in Latin America: First Half of 2026, já em sua segunda edição. Vindos de quem processa o fluxo de mais de 10 milhões de usuários e cerca de 1.900 clientes institucionais.
O número que mais se destaca é o do lado institucional. O volume transacionado com stablecoins na Bitso Business cresceu 81% em um ano, e o relatório faz questão de mostrar que mudou também a natureza desse uso, entre infraestrutura de operação, sustentando liquidação em tempo real, gestão de tesouraria e liquidez para fluxos cross-border. E o perfil de quem entra reforça o momento, com 60% dos novos clientes vindo de instituições financeiras, como bancos e prestadores de pagamento licenciados, outro terço de empresas da economia real, e só uma fatia pequena das cripto-nativas que um dia dominaram a base.
No varejo, o movimento é igualmente simbólico. Pela primeira vez, os dólares digitais superaram o bitcoin como o ativo mais comprado pelos usuários da Bitso na região, com 40% das compras em 2025 contra 18%. E o motivo diz muito sobre como as pessoas passaram a usar os dólares digitais como reserva de valor e porta de acesso a mercados globais, não como ficha para girar em outros criptoativos. O relatório chama isso de dolarização digital, uma versão que acontece de forma instantânea, a baixo custo e sem depender de uma conta bancária no exterior.
Há ainda um terceiro sinal, mais silencioso. A adoção deixou de se concentrar em um nicho. Os traders e as mesas de OTC seguem como o maior grupo, hoje com mais da metade da base, mas a stablecoin se espalhou por pagamentos, remessas e até gaming. Como resume o relatório, a pergunta deixou de ser quem usa stablecoin e passou a ser quantos setores diferentes já a integraram no dia a dia.
Foi o COO da Bitso, Imran Ahmad, quem deu nome a essa soma. Denominado de HyFi, ou Hybrid Finance, o ponto em que mercado tradicional e stablecoins deixam de ser dois mundos e passam a operar como um só. E olhando para as empresas, patrocinadores e painelistas, isso verdadeiramente se convergia para tal.
O que se ouviu pelos corredores
Entre um painel e outro, o stand da Lumx e conversas pelo salão, a equipe se espalhou pela conferência para trocar com quem está construindo. Foi nessas conversas que o conceito do HyFi ganhou textura. Os destaques estão reunidos abaixo.
A primeira conversa foi com Ivan Torroledo Peña, co-founder da Littio, um neobank que usa stablecoins para levar produtos financeiros internacionais a quem vive nas economias emergentes da América Latina, da conta multimoeda em dólar e euro ao cartão para gastar lá fora. A Littio nasceu na Colômbia, já entra em México e Argentina e olha para o Brasil. Para Ivan, o maior salto do último ano não foi tecnológico, e sim de percepção: os parceiros de infraestrutura tradicional finalmente passaram a tratar a tecnologia como aliada.
"Vejo mudanças que vão da regulação à forma como as pessoas do mercado tradicional percebem stablecoins, e em como as empresas estão mais abertas a trabalhar com elas, assim como o usuário, a entender a tecnologia e seus benefícios."
Em conversa com Cactus Raaza, CEO Americas da B2C2, market maker global que provê liquidez para exchanges, investidores e plataformas de varejo, da Ásia ao Oriente Médio, da Europa às Américas, a leitura foi mais seca: as stablecoins viraram a forma preferida de mover valor entre países, das remessas aos pagamentos entre pessoas, e é para esse trilho que a indústria de pagamentos vem migrando. Não à toa, no recorte do relatório da Bitso, os transmissores de dinheiro e os agregadores de pagamento aparecem lado a lado com as mesas de OTC, sinal de que o mesmo trilho serve, ao mesmo tempo, os mercados de capitais e os pagamentos do mundo real.
Já James Ross, Director LATAM da Utila, opera nos bastidores. A empresa é a infraestrutura de carteiras que fica por trás das operações de stablecoin, cuidando da criação e da segurança das wallets e das conexões com compliance, liquidez e permissões. Por enxergar a operação de baixo, foi ele quem trouxe o recorte geográfico mais curioso: o mapa da adoção está se abrindo. Além do "big four" de sempre, formado por Brasil, México, Argentina e Colômbia, mercados como Venezuela, Bolívia e a América Central começam a se mexer, puxados mais pelo contexto macro do que pela tecnologia. Uma nova onda, nas palavras dele.
Nathaly Diniz, CRO da Lumx, conversou com Thomaz Teixeira, da BRL1 Network, que emite uma stablecoin lastreada no real. A proposta é dar acesso a uma versão digital e simples do real para quem quer transitar entre o mundo cripto e o uso internacional, via protocolos globais. Quando perguntado pelo maior desafio, ele foi direto: o gargalo ainda é de educação. Para Thomaz, muita gente olha para a tecnologia com um certo preconceito, como se fosse algo distante e novo demais, quando no fundo é só uma maneira mais simples de usar dinheiro. A clareza regulatória que o Brasil vem construindo, na visão dele, já começou a dar frutos e ajuda a destravar essa conversa.
Outra conversa relevante foi com Henrique Teixeira, Global Head of Payments Partnerships da Mysten Labs, o time por trás da rede Sui. A origem é curiosa: o grupo começou dentro do Facebook, no antigo projeto Libra, e depois ganhou vida própria para andar mais rápido. Hoje reúne uma stablecoin própria, a Sui USD, a blockchain Sui e a carteira Slush, com foco em privacidade, trading e pagamentos cross-border. Henrique apontou o GENIUS Act como o divisor de águas do último ano, o momento em que bancos e empresas de pagamento passaram a olhar para as stablecoins como meio de pagamento de verdade.
"Com o Genius Act houve uma maior evolução, com mais bancos, instituições financeiras e empresas de pagamento começando a olhar para o mercado. Daqui para frente, acredito que o mercado continuará a crescer, se tornando um produto mainstream."
Para ele, o próximo capítulo passa por dois movimentos. O primeiro são stablecoins que vão além do dólar, emitidas também em moedas locais. O segundo é a corrida por parceiros de on e off-ramp com acesso direto às câmaras locais, como o Pix no Brasil e o SPEI no México, para resolver a última perna do pagamento de forma instantânea.
O que a Lumx levou de volta
Não por acaso, foi exatamente essa última perna que a Lumx levou para a conferência. A empresa esteve com um stand na área Push Village, rodando demos da operação, incluindo a perna em MXN via SPEI de ponta a ponta, da coleta à conversão e à liquidação em um único fluxo. Depois de ouvir tanta gente descrever o gargalo, demonstrar a solução funcionando foi a forma mais direta de posicionar onde a Lumx se encaixa nessa história.
O relatório da Bitso fecha com uma frase que sintetiza o momento: o que se observa já não é validação de mercado, e sim convergência em escala real. E ela descreve bem o que se percebeu nos dois dias: as instituições tradicionais entrando com maturidade regulatória, escala e confiança, e a infraestrutura aberta e programável das stablecoins entrando com velocidade. A América Latina, por motivos conhecidos, se consolidou como o grande campo de provas dessa combinação.
A melhor síntese veio no último painel, com Lucas Rangel, Digital Assets Director do BTG Pactual. Para ele, daqui a cinco anos o próprio nome da conferência pode mudar, porque a fusão entre esses mundos vai resumir a conversa ao seu denominador mais comum: tornar mais prática e acessível a forma como movemos dinheiro pelo mundo.
Após mais um grande ano realizado pela Bitso Business, constituindo-se como um dos eventos imperdíveis do calendário, a Lumx já confirma interesse na próxima edição, com curiosidade para ver qual será o cenário que a conferência encontrará pela frente.
Para Ler
Fora do universo das stablecoins, mas dentro de uma questão que ocupa cada vez mais espaço na agenda de marketing digital: como aparecer nas respostas das IAs. A Ahrefs analisou 137 mil sites para testar uma das táticas da moda, o arquivo llms.txt, e o resultado é um banho de água fria. De todos os arquivos publicados, 97% não receberam uma única visita em maio. Nem de bot, nem de gente.
Os números seguem desconfortáveis para quem apostou na tática. Cerca de 28% dos sites já publicam o arquivo, mesmo sem nenhuma grande plataforma de IA ter se comprometido a lê-lo, e quase todo o pouco tráfego que existe vem de bots, com os agentes de código na frente dos buscadores de IA. Até o John Mueller, do Google, resumiu o llms.txt como uma "muleta temporária" para ferramentas de coding, não algo que afete a busca. É uma leitura que desarma boa parte da conversa atual sobre visibilidade em IA.
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História da Semana
Em um momento em que toda marca quer transformar comunidade em canal de aquisição, o Hinge resolveu fazer o contrário.
O aplicativo de namoro, que caminha para virar um negócio de US$ 1 bilhão até 2027, mantém desde 2023 uma iniciativa chamada One More Hour, que financia grupos sociais e organizações de base em cidades como Nova York, Los Angeles e Atlanta. Já foram mais de US$ 2 milhões em doações, com outros US$ 1,5 milhão previstos para este ano. O detalhe que chama atenção é o que o Hinge não pede em troca: nada de download do app, nada de promoção obrigatória.
A lógica, segundo a CMO Tamika Young, é que comunidade não deveria ser tratada como canal de marketing. O pano de fundo é preocupante: o Surgeon General americano estima que a geração Z passa mil horas a menos de convívio presencial por ano do que seus pares de duas décadas atrás. Em vez de surfar essa solidão com mais uma campanha, o Hinge decidiu bancar quem cria encontros de verdade, sem capturar o crédito.
É um caso que diz menos sobre namoro e mais sobre a diferença entre patrocinar uma comunidade e tentar possuí-la. Para quem constrói marca em qualquer setor, inclusive o de stablecoins, é uma distinção que vale guardar.
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Leitura complementar entre regulação, bancos e stablecoins
Acompanhe alguns movimentos que marcaram a semana:
O Banco da Inglaterra flexibilizou suas regras, trocando limites de posse individual por um teto de emissão de £40 bilhões por stablecoin
A NYDFS, de Nova York, e a Autoridade Bancária Europeia se uniram para supervisionar stablecoins dos dois lados do Atlântico
A Chainlink entrou no Project Pangea, com bancos da Europa e da Coreia, para testar settlement de câmbio com stablecoins de euro e won
Agustín Carstens, ex-chefe do BIS e antigo crítico do setor, suavizou o tom e defendeu a coexistência entre stablecoins e moeda fiduciária
Segundo a Bitwise, consultores do mercado tradicional querem ouvir mais sobre stablecoins e tokenização do que sobre bitcoin
O conceito de HyFi que emergiu da conferência captura o que o mercado já está vivendo na prática com a fusão entre infraestrutura tradicional e stablecoins deixou de ser tese para virar operação.
Esta foi a Stable News, uma curadoria semanal para te deixar a par das últimas atualizações envolvendo stablecoins ao redor do globo.






