Stable News

A Bolívia estuda adotar uma stablecoin nos pagamentos nacionais

O debate sobre adoção muda de patamar quando um país considera stablecoins como infraestrutura oficial

Caio Barbosa

Fundador & CO-CEO

Forbes Under 30. Uma das principais vozes em Fintech & Crypto no Brasil. Escreve semanalmente sobre stablecoins, pagamentos e o futuro da infraestrutura financeira na América Latina.

Imagem de capa do artigo do blog da Lumx: Bolívia estuda a adoção de uma stablecoin para pagamentos nacionais
Imagem de capa do artigo do blog da Lumx: Bolívia estuda a adoção de uma stablecoin para pagamentos nacionais

Stable News é a curadoria semanal da Lumx dedicada a acompanhar os principais movimentos em stablecoins, infraestrutura digital e o futuro dos pagamentos globais.

Um país da vizinhança latino-americana passou a estudar a adoção de uma stablecoin nos pagamentos nacionais, um dos maiores emissores virou banco federal nos EUA, a rede que conecta os bancos do mundo se preparou para mover dinheiro tokenizado a qualquer hora, e os trilhos de stablecoin ganharam tração em trading e na própria América Latina. Para fechar, uma reflexão sobre por que confiança e mídia espontânea viraram ativo na era da busca por IA.

Bolívia estuda adotar USDT no sistema nacional de pagamentos

Em resumo:

  • O governo boliviano avalia incluir a USDT, da Tether, como forma de pagamento no país, segundo relato do jornal La Razón

  • O Ministério da Economia citou cautela por conta da lista cinza do FATF e disse trabalhar em regulação

  • Entre julho de 2024 e junho de 2025, a Bolívia movimentou US$ 14,8 bilhões em transações cripto, oitava colocada na América Latina

A Bolívia passou a avaliar a inclusão da USDT, maior stablecoin lastreada em dólar, como forma de pagamento no país, segundo relato do jornal local La Razón a partir de uma coletiva do ministro da Economia, José Gabriel Espinoza Yáñez. O ministro fez questão de sinalizar cautela, lembrando que o país está na lista cinza do FATF e que os ativos precisam ser avaliados com cuidado, e afirmou que o governo trabalha em regras para governar o uso por quem já adotou essas moedas, "em muitos casos por necessidade".

O contexto ajuda a dimensionar o movimento. A Bolívia removeu em 2024 o bloqueio a transações cripto e, entre julho daquele ano e junho de 2025, movimentou US$ 14,8 bilhões em transações, o oitavo maior volume da América Latina, região que somou cerca de US$ 1,5 trilhão em três anos segundo a Chainalysis. Em outubro de 2024, o Banco Bisa, um dos maiores do país, iniciou serviços de custódia cripto restritos à USDT. Paolo Ardoino, CEO da Tether, comentou que a USDT "é cada vez mais usada como pilar em várias economias de mercados emergentes".

A leitura se encaixa no mapa desenhado algumas edições atrás. Nos mercados emergentes, a stablecoin costuma ser menos uma escolha de inovação e mais uma resposta prática ao acesso ao dólar, e o caso boliviano leva essa lógica a um novo patamar, o de um governo considerando o dólar tokenizado como parte da infraestrutura oficial de pagamentos. Não é um movimento consumado, e a cautela regulatória citada pelo próprio ministro mostra que o caminho é gradual. Mas a direção reforça o que os dados de adoção da região já vêm indicando.

Circle recebe aprovação final para operar como banco nacional nos EUA

Em resumo:

  • A OCC deu aprovação final para a Circle estabelecer um national trust bank, levando os US$ 73,2 bilhões da USDC para um arcabouço federal único

  • Ação da Circle subiu cerca de 8,4% no dia, para US$ 68,40, recuperando parte da queda da semana anterior

  • O movimento integra uma onda de acessos bancários a empresas cripto sob o governo Trump

Na edição passada, a chegada da Open USD colocou pressão sobre a economia de reservas da Circle e derrubou sua ação. Nesta semana, a empresa avançou por outra frente e recebeu aprovação final da Office of the Comptroller of the Currency para estabelecer um national trust bank. Na prática, a infraestrutura que sustenta a USDC, com US$ 73,2 bilhões em circulação, sai de um mosaico de regras estaduais e passa a operar sob um quadro federal único. A ação subiu cerca de 8,4% no dia, para US$ 68,40, recuperando boa parte da queda de 16% que sofreu quando a OUSD foi anunciada.

Como acompanhado desde a edição #133, o GENIUS Act destravou um caminho para que empresas cripto acessem charters bancários, e a fila anda: o Sony Bank sinalizou aprovação condicional da OCC na quinta-feira, a caminho da própria stablecoin em dólar, e em dezembro Ripple, BitGo, Fidelity Digital Assets e Paxos receberam tratamento semelhante. Nem tudo é consenso: a senadora Elizabeth Warren argumenta que os charters foram concedidos de forma imprópria, enquanto grupos do setor rebatem a crítica. Jeremy Allaire, CEO da Circle, resumiu o objetivo como construir "uma nova camada monetária fundamental para a internet", e disse que a empresa vai oferecer custódia de ativos digitais e de valores mobiliários tokenizados pelo banco.

A leitura que interessa para quem constrói infraestrutura é sobre convergência. A mesma Coinbase que celebrou o charter da Circle (com quem divide a receita de juros das reservas da USDC) foi uma das mais de 140 empresas que apoiaram a OUSD no mês passado. O emissor responde à ameaça competitiva virando banco regulado, enquanto seus próprios parceiros apostam em alternativas. É o retrato de um mercado em que a linha entre emissor de stablecoin e banco fica cada vez mais fina, e em que a competição e a colaboração acontecem ao mesmo tempo, entre os mesmos nomes.

SWIFT prepara ledger para mover dinheiro tokenizado 24/7

Em resumo:

  • 17 bancos em seis continentes vão pilotar a troca de tokens que representam depósitos no "ledger baseado em blockchain" da SWIFT

  • Participam gigantes sistêmicos como Citi, HSBC, BNY, BNP Paribas, Standard Chartered, UBS e Wells Fargo

  • Os tokens se movem à noite e nos fins de semana, mas a liquidação final ainda depende dos sistemas legados em horário bancário

A SWIFT, cooperativa que conecta milhares de bancos há décadas, anunciou que 17 instituições em seis continentes vão participar de um piloto de troca de tokens que representam depósitos. Entre os participantes estão bancos classificados como sistemicamente importantes pelo Financial Stability Board, como BNP Paribas, BNY, Citi, HSBC, Standard Chartered, UBS e Wells Fargo. O ledger permite movimentar depósitos tokenizados "durante a noite e nos fins de semana", justamente a característica de operação contínua abordada ao tratar do settlement em stablecoin da Mastercard na edição #134.

Há uma ressalva importante no desenho. A liquidação final em moeda fiduciária ainda passa pelos sistemas tradicionais, em horário bancário, de modo que a promessa de dinheiro "sempre disponível" vale para a camada de transferência, não para a de settlement definitivo. A arquitetura é compatível com a Ethereum Virtual Machine, mas a rede segue majoritariamente centralizada: a SWIFT opera um ambiente compartilhado enquanto cada banco mantém autoridade sobre seus próprios ativos. A própria cooperativa destacou que construiu o produto em nove meses.

A leitura estratégica é a de um incumbente adotando blockchain nos seus próprios termos. Redes como o XRP Ledger e, mais recentemente, a Canton, se posicionaram como alternativas mais rápidas e baratas ao stack da SWIFT, e a resposta da cooperativa é incorporar a eficiência da tokenização sem abrir mão do controle e do compliance que os bancos já conhecem. Para quem opera pagamentos cross-border, o recado é que a modernização dos trilhos tradicionais e a expansão das stablecoins deixaram de ser trajetórias paralelas e passaram a disputar o mesmo terreno — o do dinheiro que se move a qualquer hora.

Perpétuos de TradFi liquidados em stablecoin passam de US$ 1,1 trilhão, diz a Binance Research

Em resumo:

  • Contratos perpétuos ligados a ativos de TradFi e liquidados em stablecoin somaram mais de US$ 1,1 trilhão no 1º semestre de 2026

  • 30% dos usuários da Binance já mantêm mais da metade da carteira em stablecoins, contra 4% em 2020

  • Na América Latina, a fatia de usuários de transferências de stablecoin da Binance mais que dobrou, de 17% (2025) para 38% (2026)

A Binance Research divulgou que contratos perpétuos atrelados a ativos financeiros tradicionais e liquidados em stablecoin ultrapassaram US$ 1,1 trilhão em volume no primeiro semestre de 2026, o equivalente a cerca de 11% de todo o volume de perpétuos cripto nos primeiros cinco meses do ano. O dado reforça a tese de que a stablecoin se consolidou como camada de settlement preferencial também para os mercados de TradFi tokenizados. Vale a conexão com a edição passada: o volume ajustado de stablecoin medido pela Visa bateu recorde de US$ 1,79 trilhão em junho, e o mercado total subiu para cerca de US$ 311 bilhões, ante US$ 254 bilhões um ano antes.

O relatório mostra ainda que o uso vai além do trading. Segundo a Binance, 30% dos usuários da exchange já mantêm mais da metade da carteira em stablecoins, contra apenas 4% em 2020, sinal de que o ativo passou a funcionar como reserva de valor, e não só como instrumento temporário de negociação. É a mesma migração de comportamento observada do lado corporativo, agora aparecendo também no varejo.

O ponto que mais ressoa para quem opera na região é a América Latina. A fatia latino-americana entre os usuários de transferências de stablecoin da Binance mais que dobrou, de 17% em 2025 para 38% em 2026, puxada por demanda por transferências internacionais mais rápidas e baratas. O dado conversa com um relatório da Bitso citado no report, segundo o qual stablecoins em dólar responderam por 40% das compras de cripto na plataforma em 2025, superando os 18% do Bitcoin pela primeira vez. Uma ex-executiva da Bybit estima que os corredores de remessa fora do eixo EUA-México representam uma oportunidade de US$ 112 bilhões, e provedores tradicionais já se moveram, com a Western Union lançando a USDPT e a MoneyGram a MGUSD. A leitura é direta: a adoção real na América Latina deixou de ser promessa e virou o dado que sustenta a tese.

Para Ler

Para quem opera newsletter, e-mail ou qualquer canal próprio, este raio-x baseado em dados reais — não em survey — merece atenção.

O Email Love analisou 79.235 e-mails de marketing enviados por 4.346 marcas no segundo trimestre de 2026, assinando as próprias listas em vez de perguntar aos profissionais o que eles acham que fazem. Alguns achados desmontam manuais antigos: o "vazio" do fim de semana acabou (sexta, sábado e domingo já quase empatam em volume, e a segunda virou o dia mais silencioso), as linhas de assunto encurtaram para 35,7 caracteres em média e ficaram mais calmas (ponto de exclamação caiu de 17,4% para 12,4%), e o volume do arquivo subiu 24,8% no ano, mas puxado por marcas novas entrando, com as antigas mantendo cadência estável.

A conexão com o ecossistema de stablecoins é a disciplina de medir o comportamento real. O relatório insiste que "a média global está mentindo para você" e que o número que importa é o do seu setor, não o agregado — exatamente o mesmo cuidado que a metodologia ajustada da Visa aplica ao filtrar bots do volume de stablecoin. Em qualquer camada, de e-mail a pagamento, a leitura útil vem de contar o que de fato aconteceu, não a média que soa bem.

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História da Semana

Na era da busca por IA, a credibilidade que não se compra virou o ativo que decide se a marca aparece.

Um artigo de Abigail Niziankiewicz, da Mediassociates, publicado na Marketing Dive, argumenta que a mídia espontânea deixou de ser um bônus de marca e virou condição para ser recomendado pelos mecanismos de IA. Os números do texto ajudam a entender a urgência: 37% dos consumidores já começam suas buscas por ferramentas de IA em vez do Google ou Bing, 60% das buscas terminam sem clique, e quando um AI Overview aparece, o clique no primeiro resultado orgânico cai cerca de um terço. Em compensação, o tráfego que chega via IA converte até quatro vezes mais que o orgânico tradicional.

O mecanismo descrito é o que torna a história interessante. Segundo a autora, a IA não premia popularidade, e sim probabilidade: cada afirmação que uma marca faz sobre si recebe uma espécie de "nota de confiança", calculada a partir de backlinks, cobertura de imprensa, autoridade de domínio e menções de terceiros. Os sistemas de IA seriam três vezes mais propensos a citar conteúdo de publishers premium do que conteúdo da própria marca, o que transforma cobertura editorial, fóruns e discussão em comunidade em sinal de autoridade, não em enfeite.

A lógica atravessa direto o mundo de pagamentos. Em finanças, como em busca, a credibilidade é o ativo que não se compra no atacado: ela se acumula em auditorias, em histórico regulatório, em reservas transparentes e na consistência com que uma infraestrutura entrega o que promete. A mesma pergunta que a autora sugere aos marqueteiros vale para quem constrói dinheiro programável: o que o mundo confirma de forma independente sobre você, e isso basta para ser recomendado? Na prática, confiança virou infraestrutura — e infraestrutura sempre foi uma questão de confiança.

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Leitura complementar entre IA, mercado e a infraestrutura ao redor

Acompanhe algumas notícias interessantes que valem dar um check:

Da Bolívia estudando USDT como pagamento oficial à SWIFT tokenizando depósitos para 17 bancos globais, a infraestrutura de stablecoins agora disputa espaço tanto nos mercados emergentes quanto no coração do sistema financeiro tradicional.

Esta foi a Stable News, uma curadoria semanal para te deixar a par das últimas atualizações envolvendo stablecoins ao redor do globo.

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